História e propósito

Como surgiu o Projeto Médicos na Cozinha

Em junho de 2017, fomos para a escola de Medicina de Harvard, em um grupo de médicos brasileiros, para fazer o curso “Medicina do Estilo de Vida”. Percebemos lá uma forte tendência ocorrendo: a da Educação Culinária para os profissionais da saúde em geral, inclusive e principalmente, o médico. Este curso abordou os benefícios para os pacientes dos médicos que sabem cozinhar e nos introduziu técnicas para abordamos com os pacientes (e para usarmos com nós mesmos) sobre os maiores obstáculos de se cozinhar comidas saudáveis em casa (falta de confiança, habilidade e tempo). Discutimos muito sobre como existem médicos não saudáveis, que não sabem cozinhar, que não aprendem noções de culinária na faculdade e por não se cuidarem, muitas vezes não cobram isso do seu paciente e nem abordam a questão do peso em consultas médicas, o que contribui bastante para o mal controle da saúde da população.

Sabemos que na medicina do estilo de vida, a mudança começa pelo médico. E já existem evidências científicas demonstrando que se o médico cozinha, o seu paciente cozinhará mais. Que se o médico possui hábitos saudáveis, ele orientará melhor o seu paciente a ter hábitos mais saudáveis. E apesar do interesse crescente na área de endocrinologia e nutrição e do avanço das pesquisas, ainda estamos longe de atingir uma igualdade entre o número de especialistas treinados no manejo do paciente obeso e as necessidades desses pacientes, sendo que muitos dos especialistas que se deparam com o paciente obeso são, de fato, especializados em cuidados primários - medicina de família e clínica geral.

Agravando isso, apenas 25% dos brasileiros possuem plano de saúde, os outros 75% dependem do SUS ou de consultórios particulares, o que acaba por dificultar muito o acesso a equipes treinadas no manejo de obesidade e sobrepeso. Por isso, não podemos deixar este cuidado apenas com endocrinologistas e nutricionistas, temos que engajar todos os médicos e profissionais de saúde nesta missão.

Como o nosso objetivo aqui é auxiliar o médico a usar a linguagem da cozinha mais do que a linguagem técnica e bioquímica sobre alimentação saudável teremos um pouco de aula teórica e muito de aula prática no modo “hands on”, ou seja, mão na massa! Pois acreditamos que esse é o caminho para estimular a auto eficácia do médico na cozinha, melhorando a sua confiança e segurança ao orientar o seus pacientes. Vamos juntos para a cozinha em prol da saúde de todos?

Dra. Paula Pires e Dra. Tassiane Alvarenga


Ainda sobre o histórico

Meu nome é Marina Galvão Bueno, mas a maioria das pessoas me chama de Tutu. Atuo como nutricionista tanto em consultório, na área clínica como também montando cardápio e treinando cozinheiras na promoção da alimentação saudável (verdadeira) e na prevenção de alguma patologia. Acredito que nutrição não é apenas o alimento ou uma dieta é a possibilidade de utilizar ferramentas e estratégias para mudar sua relação com a comida e o modo de comer, trazendo a atenção para o momento presente sem julgamentos ou críticas - não só alimentar o corpo, mas a mente e as emoções.

Assim que soube do curso que a Dra. Paula Pires e amigos fizeram em Harvard “Clinicians CHEF coaching” prontamente me ofereci a contribuir de alguma forma no projeto Médicos na Cozinha. Nada como uma alimentação preventiva no tratamento de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, hipertensão, depressão, ansiedade e outras. Através de aulas “mão na massa” os médicos são motivados a transferir o prazer de cozinhar para seus pacientes melhorando assim a qualidade de vida e prevenindo doenças.

Sempre acreditei na mesa como elo agregador de amigos e familiares. Esse momento, é uma oportunidade única de você transmitir a seus filhos não apenas praticas culinárias, mas também comportamentos, ensinamentos de toda uma vida. A cozinha também te propicia a ser desafiadora, aguentar fracassos (quando a receita não sai como o esperado) e a respeitar a natureza no que ela tem de melhor para oferecer. Por fim, dedico minha maneira de ver os alimentos assim como comportamento de se alimentar a Michael Pollan “Ao reconquistar o território da cozinha, reforçamos vínculos comunitários e familiares, damos um passo importante para tornar nosso sistema alimentar mais saudável e sustentável”.

E por último e não menos importante procure um(a) nutricionista para orienta-lo no seu plano alimentar.

Um depoimento…

Quando recebi o convite da Dra. Paula Pires para participar desse projeto, elaborando e transmitindo as receitas para os médicos, fiquei imensamente feliz, porque sei o impacto positivo que o projeto “Médicos na Cozinha" pode trazer na vida dos pacientes.

Eu descobri a importância da alimentação saudável aos 27 anos, depois que fui diagnosticada com a síndrome Von Hippel Lindau (VHL) e em decorrência dessa doença desenvolvi um feocromocitoma bilateral nas adrenais e tumores neuroendócrinos de pâncreas, que foram operados.

Após a cirurgia do pâncreas é que me dei conta o quanto os alimentos ultraprocessados e processados poderiam fazer mal para o nosso organismo. Ainda internada na UTI de um hospital oncológico, o primeiro alimento que recebi após a cirurgia foi um suco de caixinha industrializado. Obviamente o meu organismo rejeitou e fui pesquisar depois o que havia de fato naquela caixinha além do que diziam as letras grandes da embalagem.

Ficou claro pra mim que esses alimentos não iam ajudar o meu corpo a se recuperar, e ao sair do hospital comecei a cozinhar meu próprio alimento e percebi com isso uma mudança enorme na minha qualidade de vida.

Acabei me apaixonando pela culinária e pelo estilo de vida saudável e criei o Alimento do Bem, uma plataforma para divulgar o bem-estar e a saúde.

Fui aperfeiçoando cada vez mais a minha alimentação e hoje apesar da metástase hepática que desenvolvi e das medicações que tomo diariamente para controle eu consigo ter uma boa qualidade de vida e me encontrar disposta na maior parte do tempo.

É importante enfatizar que durante esses 5 anos como paciente, fazendo acompanhamento com diversas especialidades, nunca recebi nenhuma instrução em como deveria proceder com relação a alimentação.

Tenho certeza que a alimentação saudável pode ajudar no tratamento e na qualidade de vida de muitos pacientes e por isso esse projeto tem uma importância imensurável, ele irá possibilitar uma grande transformação na vida de muitas pessoas!

Ensinar um pouco do que aprendi na cozinha para os médicos é pra mim uma forma de agradecer por tudo que eles fizeram nesses 5 anos, me dando uma nova vida.

O propósito deste projeto…

Nosso objetivo nesse projeto é unir a medicina e a culinária, com o intuito de conscientizar a classe médica sobre a importância de cozinhar seu próprio alimento, para a garantia de uma alimentação saudável e adequada para as necessidades específicas de cada indivíduo. Nosso intuito é que os médicos consigam melhorar o seu próprio estilo de vida e assim melhorar a eficácia na orientação de seus pacientes com obesidade e outras doenças crônicas, para por fim, contribuírem na construção de uma população mais saudável e com mais qualidade de vida.